OS MÓVEIS, OS QUARTOS, A CASA

   

O menino acordou e sentou na cama. No ar havia uma ameaça inominada. Um ruído... Algum ladrão? Rodeava-o o silêncio familiar da casa adormecida. Perto dos pés, sentiu o calor do gato que fugira da cozinha e se enovelara ali, numa massa negra e calorenta. Tudo quieto na casa.  

Mas havia algo estranho. Acima de tudo... Vento? Não: o barulho das ondas. No silêncio da noite, o mar se desatara dos limites e invadira a cidade.  

Inteiramente desperto, dobrou o travesseiro, ajeitou melhor as cobertas e ficou reclinado, ouvindo o barulho que cruzava os ares. O gato resmoneou, mas continuou enrodilhado, a cabeça entre as pernas.  

Descobrira um segredo, pois. No silêncio da madrugada, o barulho do mar invadia a cidade. Confinado durante o dia, pela atividade do homem, quando a noite avançava, o mar – que não conhecia cansaço – retomava seus direitos pregressos, de quando não havia cidade, e expandia seu rumor até a serra.

Agora inteligível, era gostoso de ouvir-se aquele barulho compassado. E ficou na cama, cercado pelos vultos familiares dos móveis, que já se distinguiam na penumbra. Móvel por móvel, aposento por aposento, podia reconstituir na memória toda sua casa. Não bem numa análise minuciosa, estática, mas em um todo indivisível, físico e emocional. Quarto da irmã em frente, com seus badulaques; um temperamento irritadiço, bloqueando qualquer acesso. A sala com o piano, móveis muito velhos. O quarto dos pais, ele sempre preocupado, algo distante; centrado em problemas inatingíveis. Mas a presença da mãe se estendendo, mediterrânea, pela casa toda, numa atividade ruidosa e feliz – uma força da natureza que desconhecia dificuldades e conflitos.

Dentro daquele quarto, todo seu mundo: a escrivaninha; a coleção de selos: o álbum da Alemanha, com a dupla série da guerra; socorros de Inverno; aniversários do Fuehrer; as espantosas sobrecargas dos selos da inflação... Deutsche Reichs Post, Deutsches Reich, Grossdeutsches Reich... Estante de livros, encapados em azul: “Mowgli, o Menino Lobo”, “A Ilha de Coral”, “O Último dos Moicanos”, “A Cidade Perdida”, “O Planeta do Terror”, “Tarzã, o Rei da Jângal”...

Estava cansado, de repente. Cansado e inexplicavelmente feliz, muito feliz, inundado por uma felicidade súbita, avassaladora, que o fazia sentir imediatamente a bondade das coisas, a perfeição da vida. Só ele desperto, entrava em comunhão com o mar, o céu estrelado lá fora, a luz da manhã filtrando no horizonte, os livros, a coleção, sua família. Sentia todo o calor da casa adormecida e ouviu, enquanto dormia, o som ritmado do mar, em um rústico acalanto.

Silêncio. Depois, um pensamento insólito brilhou nas trevas do sono.  

Se o mar parasse? E se um dia o mar parasse?  

Assustado, acordou. Mas a idéia era tão absurda que ele próprio sorriu e readormeceu.

   

 

FRANCISCO CALBUCCI (S/D)  

 

 

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