O destino de um excluído...

 

Vinte e três de maio de 2000 – em frente ao recém-reformado templo de consumo, o supermercado “Pão de Açúcar” do largo Ana Rosa, um espetáculo deprimente – a presença incômoda de um cadáver estendido no chão à espera de ser recolhido. Diante do luxo  e das luzes do belo edifício, aberto noite e dia, jazia o corpo de um rapaz, que não resistira às baixas temperaturas, à falta de alimento e aos maus tratos desta sociedade que o excluíra.

Fora a noite mais fria do ano até então, e o “indigente” morrera ali, ao relento, à vista de todos, sem socorro, sem  alguém que lhe estendesse a mão. Teria sido um número a mais nas estatísticas dos que  sucumbem diante de um sistema que relega o ser humano ao mais completo abandono. Pior – nem isto – sua morte não chegou a ser noticiada em nenhum jornal -  ficou no  esquecimento.  

Semanas atrás eu percebera naquela infeliz criatura  a criança indefesa e sensível que existia em seu interior, e que tanto carecia de uma palavra amiga – não somente de alimento e abrigo. Como um cão perdido, ao encontrar casualmente a família da Rua Manoel de Paiva, ele vinha atrás... falando, frases aparentemente desconexas, como se o simples fato de estar próximo de pessoas conhecidas lhe proporcionasse algum conforto. Talvez evocássemos em seu íntimo reminiscências de um passado remoto, época em que vislumbrara alguma alegria.

Aquele rapaz de 32 anos um dia já fora um adolescente, que costumava vir, lépido em sua bicicleta, à casa de minha mãe, entregar a encomenda que ela habitualmente solicitava ao açougue das imediações. Quem poderia imaginar que futuro sinistro o esperava... Aquele garoto cuja vida poderia ter tomado outro rumo, se não fosse um dia ter sido triturado pela desesperança. Ele poderia ser mais um bandido, um ladrão, um assassino. No entanto não...  apesar de encontrar-se  numa situação de total desamparo, o máximo que ele fazia era bater à porta da casa de Dona Emília, para pedir um pouco de comida. A mesma senhora para quem ele entregava carne em outros tempos.

 

E um fato tocou-me em especial... Foi um encontro casual que ocorreu poucas semanas antes de sua morte.  Como de costume, ele apareceu no portão da casa de minha mãe e começou a conversar comigo e meu irmão, que nos encontrávamos no jardim. E com os olhos lacrimejantes,  ele chegou a referir-se ao falecimento de sua mãe aos 49 anos de idade... Ia falar mais, mas estancou, uma vez que não encontrou ouvidos. Talvez estivesse precisando urgentemente falar disto com alguém, e eu, tal como este sistema desumano que abomino, calei-me, deixei para depois;  imaginei que um dia ainda haveria de “arranjar um tempo” para ouvir tudo aquilo que pressentira que este moço necessitava dizer...

Pois não é que ele se antecipou a mim? O que mais me surpreendeu foi quando Ademir – era este o seu nome – dirigiu-se à minha pessoa, fitando-me nos olhos, e disse-me, complacente: “Você parece triste... Está assim, meio pra baixo...”. Ocorre que, naquele dia, eu me encontrava  melancólica, cabisbaixa, "com a morte na alma" (parafraseando Sartre), sem que qualquer pessoa de meu convívio  houvesse notado aquela dor que me corroia internamente.

Apesar de sua condição desesperadora – ou talvez justamente  “em função da mesma” - por conhecer tão de perto o sofrimento humano em todas as suas nuances - ele fora o único a dirigir-me uma palavra que denotasse algum interesse genuíno pela minha pessoa. Ele percebera, que tal como ele, eu também encontrava-me carente e abandonada - embora não me faltasse teto ou alimento. Carecia de afeto, simplesmente. Eu, que postergara para a eternidade o momento de ouvir aquilo que tanto o angustiava...

Hoje nem sequer sei onde está enterrado seu corpo (se é que o está...), e nem posso, como consolo,  levar uma flor e fazer uma oração para este meu amigo... Que jamais chegou a saber o quanto veio a significar para mim - depois de morto. Como se este gesto pudesse reverter o passado, e o pungente sentimento de omissão que se abateu sobre mim. “MEA CULPA”.

 

 

 

Depoimento de Vera Azevedo Rodrigues, baseado em fato verídico. Tem como foco o desamparo dos marginalizados, daqueles que não tem voz para se defender e são massacrados pelo sistema. Mas também não deixa de ser uma confissão de culpa – afinal, a maioria de nós assiste a tudo sem fazer absolutamente nada pelo próximo que agoniza diante de nossos olhos.  

 

 

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